quarta-feira, 20 de maio de 2015

Só as pedras guardam 
o núcleo de todos os segredos

só elas carregam 
no seu ventre
a dor e o silêncio
dos primórdios das trevas

nunca serão uma espécie
em vias de extinção 

reproduzem-se
dividindo-se

Olívia Santos

terça-feira, 5 de maio de 2015

Podem encontrar-me na tranquilidade dos meus gestos mas por dentro das mãos  trarei sempre a brandura do restolho e essa saudade que só se encontra plasmada nos dedos das ceifeiras; podem ver as minhas mãos de cor alva e toque seda mas dentro delas tenho outras, secas e gretadas pelo sol que queima como se Agosto fosse. E nos olhos, nos olhos trarei sempre as lonjuras dos poentes rubros onde rebenta a onda da seara em movimento. No fado que trauteio nas madrugadas solitárias há ainda um canto-chão e a minha boca saciada tem saudades do sabor da água que nascia  do ventre do cântaro de barro tão usado. E nos cabelos soltos trarei sempre a sombra da papoila que morria à fome dos trigais prostrada entre os caracóis do meu cabelo. Podem encontrar-me noutra terra, noutro espaço mas tenho um coração de trigo e uma alma caiada de ternura pelas mãos das mulheres que trago a correr nas minhas veias. E aos domingos o sino da igreja aqui ao lado leva-me de volta à dança do rebanho, tilintada e lenta, de volta ao aconchego do redil.

Olivia Santos

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Ouve

Dormes
não há pontos cardeais
nesta noite fria

toco-te o cabelo
sinto frio

Ouve: esse embalo que sentes
mas não sabes de onde vem
que te aquieta e faz dormir

é a agitação da minha alma que
te chama do centro da insónia

e faz de berço ao vazio
em que guardo o meu cansaço 

Ouve: a noite é calma e da raiz das trevas
nasce a dolorosa nitidez
da dor
e
do silêncio 

Olívia
Santos

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Há uma paz suprema que se estende ao mundo
Quando as fissuras da terra, abertas pelo sol ardente
Ficam preenchidas por
finas agulhas
de água
Paz, há uma paz
quando a chuva forte 
Alivia o vento da sede e solidão
Há paz
Quando todos os seres do universo bebem
qualquer que seja a sua sede

Olívia Santos

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O silêncio dorme 
há um fio frio, líquido,
que desce sobre a noite 
a vida aquieta-se
na contemplação 
da leveza dos astros

suspensos 

pousa sobre ti
um desassossego
breve
como saltitar de pardal
ou bater de asa 

as pontas dos meus dedos 
deslizam quentes, 
sobre a melancolia do teu rosto

devolvo-te o sono
com a calma de um beijo

Olívia Santos

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Em memória do Fogo


Há um ínfimo minuto de cinza

Que não vai com o vento

Fica, morno

Suspenso na eternidade

Em memória do fogo

 

Olívia Santos

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Procuro-te no Mundo


Fecho os olhos e procuro-te nesse mundo dos sentidos que fica sob as nossas pálpebras.

Percorro caminhos ínvios por dentro de mim, sempre a passo lento e curto, palmilhando esta cidade subterrânea e mágica, esta cidade interior, única e encantada. Encantada de nós. Ainda ontem eras matéria nestas praças, nestas ruas; ainda ontem te conseguia alcançar, numa dança de toques furtivos e tremores de pele; ainda ontem fazias nascer flores nas bermas dos meus olhos, fazendo sorrir a própria Primavera. Fecho os olhos e procuro-te no meu mundo, sabendo que só aqui te encontrarei, e no entanto numa alquimia que só mágicos como nós percebem, pressinto que é neste mundo que jamais te encontrarei.

És sazonal e livre como os malmequeres do campo e deixas cair o brilho das manhãs quando te (a)colhem.

És sazonal e livre como os humores da Primavera e sempre que te quero sol e brilho, ofereces-me a ventania nos cabelos e a chuva fresca nos meus olhos.

 

Fecho os olhos e procuro-te. No mundo.


Olívia Santos

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Amar "A capella"


Tenho saudades das noites

em que dedilhavas o meu corpo
como cordas de viola

eu sorria, apenas sorria

e amava-te "a capella"
 
Olívia Santos

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Beijo

Não há espaço euclidiano
que limite a vontade de beijar
não há ferro nem fogo que o impeça 
nem frio polar que o torne inerte

Não há grades
que consigam prender
o beijo 
que quer acontecer

Olívia Santos

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Café


 
 
Pedes dois cafés
um, mais curto, menos doce
nunca imaginei ver poesia num café
mas a doçura da tua mão aberta
abriu-me o pensamento e a urgência
de escrever – nem que fosse só um verso:
que descrevesse a poesia
do breve movimento do teu toque ternurento sob a chávena
no exacto ponto, nesse mesmo ponto
onde os meu lábios, depois, pousaram levemente
 
Olívia Santos
 
 

terça-feira, 29 de abril de 2014

Sede

Subitamente

um pássaro pousa nos meus olhos
saltitante, apressado

entoa um trinado suplicante
no calor da tarde
solto lágrimas
para lhe matar a sede


Olívia Santos