Ainda te lembras da cor que tinham os amanheceres sobre a cidade? Do encanto que sempre encontrávamos no silêncio de tudo o que dormia à nossa volta? Lembras-te como os olhares que te ofertava estavam cheios de frases e poemas que te faziam esquecer o esvoaçar das borboletas? Lembras-te quando me seguravas a mão ainda fria de atravessar a madrugada, e pouco a pouco vertias nela a maciez da fruta madura que trazias nos teus dedos?
Lembras-te dos meus gestos? Da minha imaginação exagerada a construir histórias, fazendo deslizar a sombra das mãos pelas paredes? E do adormecer? Lembras-te do nosso adormecer? Dizias que continuavas a ver a minha íris pela persiana transparente dos meus olhos. Dizias que nunca. Essa é a parte que me lembro mais, que me lembro sempre. Sempre. O nunca. Dizias que nunca nós. Dizias que nunca nós em caminhos separados, nunca nós com nós nas nossas bocas. Lembras-te da lua sobre a ponte e outra lua mais longe sobre a torre? Nunca te disse mas essa noite; essa noite talvez fosse presságio, duas luas sob os nossos olhos. Presságio.
Lembras-te das coisas banais das nossas vidas, do arrumar da casa, do dispor dos móveis em forma perpendicular? Dava sorte, dizias. Tocavam-se num canto e não fariam sentido separados. E as músicas? Lembras-te das músicas que se escondiam sonolentas pela casa o dia todo, e se soltavam, loucas, inebriantes, assim que a nossa chave rodava a fechadura?
Ainda te lembras da cor dos amanheceres sobre a cidade? Ainda te lembras do dia em que voámos com as asas de anjo que trouxeste, dizias tu, de outra vida ou dos arredores do céu? Lembras-te das vezes que te arrastava da margem dos meus sonhos, para sonhar sozinha – mas contigo?
Lembras-te do dia, seguido de outros dias, da noite, seguida de outras noites que me chamavas mas era outro nome que eu ouvia?
Havia oceanos nas palavras que dizias e histórias de poetas nos ventos de levante dos teus olhos (neles era sempre maré cheia)
memórias circulares entre os teus dedos estradas de fogo a queimar a minha pele um relógio, rubro a lembrar a fuga em contumácia - dos segundos a lembrar a lucidez dos pássaros que desocupam os seus ninhos antes que os destrua a tempestade Olívia Santos
Deito-me sobre a minha própria dor
borrifo-a com gotas que chovem dos meus olhos
aliso-a
com as minhas próprias mãos
como se me fosse tão familiar e íntima
como o lençol de linho em que adormeço
Olívia Santos