quarta-feira, 16 de abril de 2014

Vives na raiz das minhas lágrimas


 

Por vezes vives na raiz das minhas lágrimas. Vives. No estuário escuro onde me nascem rios salgados
que de tão aprisionados pelas margens sabem-se sem esperança de alcançar os sete mares. Sobes-me ou desces-me as colinas e danças-me inevitavelmente na retina. Inevitável e lento, trémulo e periclitante na lágrima retida; trémula, ali, a lágrima por cair, ali de onde o mundo se reflecte pardo e desfocado. Vês como eu, o mundo desfocado e pardo, num porvir absurdo que nos falece antes que seja. Por vezes fazes pequenas ondas no lago dos meus olhos e tremulas ao vento a bandeira da revolta: queres que eu seja tempestade, que tudo apague, que tudo lave, que tudo; mas a lágrima, mareada e sombria, grita e força a grade para rolar livremente pela face. Evito a queda, porque não quero que roles com ela até ao chão e te sujes no sangue que escorre dos meus pés. As caminhadas foram sempre longas e os caminhos pródigos em gumes. Soubesse eu que as lágrimas corriam só em direcção à boca, soubesse eu que as lágrimas em que me habitas corriam sempre em direcção à boca; soubesse eu e soltava-as nessa liberdade de sal aquoso; deixava-te entrar de novo em mim. E de novo, de novo, sempre de novo, deixava que voltasses a ser líquido, quente e terno, recolhido, na raiz das minhas lágrimas.


Olívia Santos

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Saudade

A saudade é um fio de água que se entranha nas paredes da alma, não se sabe onde começa, não se consegue vedar. Infiltra-se mais e mais, silenciosamente, até a alma ser um quarto escuro e húmido. Até a alma ser água, sem no entanto ser rio; ser água, sem no entanto ser mar.

sábado, 5 de abril de 2014

O céu da manhã cai sobre mim
como purpurinas em olhos de criança 
um excesso de luz
anula as sombras 

chuva de lava
a crepitar na minha pele

a tua mão pousada sobre a minha vida

terna e leve 

Olívia Santos 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Nua



pouco importa que me dispa 
no
canto do quarto onde não chega a luz
se a essa hora, a minha alma inteira

já dorme nua sob o teu olhar

Olívia Santos