quinta-feira, 5 de junho de 2014

Procuro-te no Mundo


Fecho os olhos e procuro-te nesse mundo dos sentidos que fica sob as nossas pálpebras.

Percorro caminhos ínvios por dentro de mim, sempre a passo lento e curto, palmilhando esta cidade subterrânea e mágica, esta cidade interior, única e encantada. Encantada de nós. Ainda ontem eras matéria nestas praças, nestas ruas; ainda ontem te conseguia alcançar, numa dança de toques furtivos e tremores de pele; ainda ontem fazias nascer flores nas bermas dos meus olhos, fazendo sorrir a própria Primavera. Fecho os olhos e procuro-te no meu mundo, sabendo que só aqui te encontrarei, e no entanto numa alquimia que só mágicos como nós percebem, pressinto que é neste mundo que jamais te encontrarei.

És sazonal e livre como os malmequeres do campo e deixas cair o brilho das manhãs quando te (a)colhem.

És sazonal e livre como os humores da Primavera e sempre que te quero sol e brilho, ofereces-me a ventania nos cabelos e a chuva fresca nos meus olhos.

 

Fecho os olhos e procuro-te. No mundo.


Olívia Santos

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Amar "A capella"


Tenho saudades das noites

em que dedilhavas o meu corpo
como cordas de viola

eu sorria, apenas sorria

e amava-te "a capella"
 
Olívia Santos

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Beijo

Não há espaço euclidiano
que limite a vontade de beijar
não há ferro nem fogo que o impeça 
nem frio polar que o torne inerte

Não há grades
que consigam prender
o beijo 
que quer acontecer

Olívia Santos

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Café


 
 
Pedes dois cafés
um, mais curto, menos doce
nunca imaginei ver poesia num café
mas a doçura da tua mão aberta
abriu-me o pensamento e a urgência
de escrever – nem que fosse só um verso:
que descrevesse a poesia
do breve movimento do teu toque ternurento sob a chávena
no exacto ponto, nesse mesmo ponto
onde os meu lábios, depois, pousaram levemente
 
Olívia Santos
 
 

terça-feira, 29 de abril de 2014

Sede

Subitamente

um pássaro pousa nos meus olhos
saltitante, apressado

entoa um trinado suplicante
no calor da tarde
solto lágrimas
para lhe matar a sede


Olívia Santos