Podem encontrar-me na tranquilidade dos meus gestos mas por dentro das mãos trarei sempre a brandura do restolho e essa saudade que só se encontra plasmada nos dedos das ceifeiras; podem ver as minhas mãos de cor alva e toque seda mas dentro delas tenho outras, secas e gretadas pelo sol que queima como se Agosto fosse. E nos olhos, nos olhos trarei sempre as lonjuras dos poentes rubros onde rebenta a onda da seara em movimento. No fado que trauteio nas madrugadas solitárias há ainda um canto-chão e a minha boca saciada tem saudades do sabor da água que nascia do ventre do cântaro de barro tão usado. E nos cabelos soltos trarei sempre a sombra da papoila que morria à fome dos trigais prostrada entre os caracóis do meu cabelo. Podem encontrar-me noutra terra, noutro espaço mas tenho um coração de trigo e uma alma caiada de ternura pelas mãos das mulheres que trago a correr nas minhas veias. E aos domingos o sino da igreja aqui ao lado leva-me de volta à dança do rebanho, tilintada e lenta, de volta ao aconchego do redil.
Há uma paz suprema que se estende ao mundo Quando as fissuras da terra, abertas pelo sol ardente Ficam preenchidas por
finas agulhas de água Paz, há uma paz quando a chuva forte Alivia o vento da sede e solidão Há paz Quando todos os seres do universo bebem qualquer que seja a sua sede